Recurso Gratuito · Referência Técnica

Glossário Técnico do Cultivo Medicinal

Definições dos principais termos de cultivo, agronômicos e regulatórios. A linguagem que todo cultivador técnico precisa dominar.

Gabriel Binotti de Oliveira · Eng. Agrônomo CREA PR-234094/D
A
AutoflowerPlanta autofloraCultivo

Variedade de Cannabis ruderalis ou híbrida que floresce automaticamente com base na idade, independentemente do fotoperíodo. Ciclo total geralmente de 60 a 80 dias do plantio à colheita. Não responde à manipulação de fotoperíodo para induzir o florescimento.

Contraste com fotoperiódica, que floresce quando o fotoperíodo muda para 12/12h.

ART/CREAAnotação de Responsabilidade TécnicaRegulatório

Documento emitido pelo Conselho Regional de Engenharia e Agronomia que formaliza a responsabilidade técnica de um Engenheiro Agrônomo sobre um serviço. No contexto do laudo agronômico para habeas corpus de autocultivo, a ART vincula o laudo ao CREA do profissional emitente, conferindo validade técnica ao documento.

B
Buffer (de coco)TamponamentoCultivo

Processo de saturação dos sítios de troca catiônica do substrato de coco com cálcio e magnésio antes do uso. O coco bruto tem alta afinidade por Ca e Mg: sem buffer, os primeiros litros de calda perdem esses nutrientes para o substrato, deixando a planta deficiente. O CocoFlow Ultra já chega buffered.

BurpingCultivo

Abertura periódica dos potes de cura para liberar o CO2 acumulado e a umidade residual. Na primeira semana de cura, recomenda-se burping de 2 vezes ao dia por 15 a 30 minutos. Sem burping, a umidade relativa dentro do pote sobe e favorece crescimento de mold e bactérias.

C
CanabidiolCBDQuímica

Canabinoide não-psicoativo presente em maior concentração nas variedades de cânhamo industrial e em cultivares medicais de baixo THC. Interage principalmente com receptores CB2 do sistema endocanabinoide. Aprovado pela ANVISA para uso terapêutico em formulações registradas. Biologicamente, encontra-se na planta na forma ácida CBDA, convertida em CBD por descarboxilação (calor ou envelhecimento).

CanabigerolCBGQuímica

Canabinoide precursor: CBGA é o ácido a partir do qual THC, CBD e CBC são sintetizados enzimaticamente pela planta. Concentrações mais altas de CBG ocorrem em cultivares jovens ou geneticamente modificadas para acumular o precursor. Pesquisas investigam propriedades anti-inflamatórias, neuroprotetoras e antibacterianas.

CanabinoidesQuímica

Classe de compostos produzidos pela Cannabis sativa que interagem com o sistema endocanabinoide humano. Os principais fitocanabinoides são THC, CBD, CBG, CBC, THCV e CBN. Encontram-se nas glândulas de tricomas, com maior concentração nas inflorescências femininas. São sintetizados na forma ácida (THCA, CBDA) e se convertem nas formas neutras por calor ou tempo.

Capacidade de campoCultivo

Estado em que o substrato retém o máximo de água disponível às raízes após drenagem gravitacional livre. No coco, a capacidade de campo é a referência para calcular o dry back: o vaso na capacidade de campo é o ponto 0% de dry back. Estabelecida pesando o vaso logo após irrigação completa com runoff adequado.

CEAControlled Environment AgricultureAgronômico

Agricultura de ambiente controlado: cultivo em ambientes fechados com controle preciso de temperatura, umidade, fotoperíodo, CO2 e nutrição. A cannabis medicinal indoor opera nesse modelo. O CEA permite padronização de parâmetros agronômicos e rastreabilidade compatível com exigências GACP/GMP.

CuraCultivo

Fase pós-secagem de maturação do produto colhido em potes herméticos. Durante a cura, enzimas degradam a clorofila (reduzindo amargor e aspereza), a umidade residual interna equaliza e o perfil terpênico se desenvolve completamente. Mínimo de 2 semanas para uso imediato; 4 a 8 semanas para expressão completa da genética.

D
DLIDaily Light Integral — Dose Diária de LuzCultivo

Quantidade total de fótons fotossinteticamente ativos (400–700 nm) recebida por uma superfície em 24 horas. Medido em mol/m²/dia. Para cannabis indoor: vegetativo 20–35 mol/m²/dia, florescimento 35–65 mol/m²/dia. O DLI é produto de PPFD × horas de luz × 0,0036.

Dry backCultivo

Percentual de perda de umidade do substrato entre a capacidade de campo (0%) e o momento da próxima irrigação. Calculado pela diferença de peso do vaso. O dry back drive é o que estimula o crescimento radicular e as trocas gasosas na zona radicular. Targets por fase: seedling 10–15%, vegetativo 25–30%, florescimento 30–50%.

E
ECCondutividade Elétrica — mS/cmCultivo

Medida da concentração de íons dissolvidos em solução. Usada para estimar a concentração total de nutrientes na calda de irrigação e no runoff. EC baixa indica solução diluída; EC alta indica solução concentrada. No coco, a EC do runoff compara-se à EC de entrada para avaliar acúmulo de sais no substrato. Mede-se com condutivímetro digital.

Eagle ClawsCultivo

Sintoma visual de toxicidade por nitrogênio: folhas curvam-se para baixo ao longo das bordas, com as pontas dobradas para dentro. As folhas ficam verde-escuras, às vezes quase pretas em casos severos. Comum quando EC está alta ou quando fertilizante vegetativo (rico em N) é usado no início do florescimento.

F
FenótipoAgronômico

Expressão física observável de um genótipo em um determinado ambiente. Em cannabis, duas sementes com o mesmo genótipo podem expressar fenótipos diferentes sob diferentes condições de VPD, temperatura, nutrição e luminosidade. O manejo agronômico molda o fenótipo; a genética define os limites do que é possível expressar.

Contraste com genótipo, que é a informação genética invariável.

FIMF*** I MissedCultivo

Técnica de poda apical parcial: remove apenas 70–80% do broto apical, deixando parte do tecido meristemático. Diferente do topping (remoção total), o FIM produz 4 ou mais pontos de crescimento em vez de 2. Menor stress que o topping, mas resultado mais imprevisível. Indicado para cultivadores com experiência em condução.

FlushCultivo

Irrigação com solução de baixa EC (0,0–0,6 mS/cm) para remover sais acumulados no substrato. Indicado quando o runoff EC supera em mais de 50% a EC de entrada. No pré-colheita, o flush com água pura é uma prática com evidência mista: pode facilitar o uso de reservas internas da planta, mas seu impacto na qualidade final é debatido na literatura técnica.

FotoperiódicaCultivo

Variedade que floresce em resposta à redução do fotoperíodo para 12 horas de luz e 12 horas de escuro. Requer controle preciso do fotoperíodo no cultivo indoor. Permite fase vegetativa de duração controlada pelo cultivador, o que possibilita maior produção por planta em comparação com autoflowers de mesmo porte.

G
GACPGood Agricultural and Collection PracticesRegulatório

Boas Práticas Agrícolas e de Coleta: conjunto de normas internacionais (OMS/EMEA) para produção e coleta de plantas medicinais. Abrange controle de solo, água, pragas, colheita, processamento pós-colheita, rastreabilidade e documentação. No Brasil, a produção de cannabis para fins medicinais segue os padrões GACP como referência para adequação às RDCs da ANVISA.

GenótipoAgronômico

Conjunto de informações genéticas de um organismo. Em cannabis, o genótipo determina os limites de potencial produtivo, perfil de canabinoides, morfologia e resposta a estresses. O fenótipo é a expressão do genótipo no ambiente. Sementes de origem confiável garantem genótipo estável; clones garantem reprodução do fenótipo selecionado.

GMPGood Manufacturing PracticesRegulatório

Boas Práticas de Fabricação: normas que garantem que os produtos são produzidos e controlados conforme padrões de qualidade definidos. Em cannabis medicinal, o GMP é exigido para fabricação de extratos e formulações farmacêuticas. Complementar ao GACP, que cobre a fase agrícola.

H
Habeas Corpus PreventivoHC de autocultivoRegulatório

Instrumento jurídico que garante ao paciente o direito de cultivar cannabis medicinal para uso próprio, afastando preventivamente a possibilidade de prisão em flagrante. Não é uma autorização administrativa da ANVISA: é uma decisão judicial individual, obtida por meio de processo judicial com documentação técnica e médica. O laudo agronômico com ART/CREA compõe o conjunto de documentos instrutores do pedido.

L
Laudo AgronômicoRegulatório

Documento técnico-informativo elaborado por Engenheiro Agrônomo que calcula a quantidade de plantas necessárias para suprir a demanda medicinal de um paciente, com base em sua prescrição médica. Inclui cálculos de biomassa, rendimento de extração, margem de segurança e estimativa de custo do tratamento. Instrui o pedido de habeas corpus preventivo de autocultivo medicinal. O laudo Buena Cosecha é emitido com ART/CREA.

LockoutBloqueio nutricionalCultivo

Condição em que um nutriente presente na calda não consegue ser absorvido pela planta por fatores físico-químicos do substrato, principalmente pH fora da faixa ideal. Lockout é a causa mais comum de "deficiências" em coco: o nutriente está na solução, mas o pH impede sua absorção. Sempre verificar pH antes de ajustar a formulação nutritiva.

LSTLow Stress TrainingCultivo

Técnica de condução de baixo estresse: os ramos são dobrados e amarrados para criar um dossel horizontal uniforme, maximizando a exposição luminosa para todos os pontos de crescimento. Não requer cortes. Compatível com autoflowers (que toleram menos estresse que fotoperiódicas). Aumenta produtividade sem ampliar o período de recuperação da planta.

P
pH SwingCultivo

Estratégia de variação intencional do pH de entrada ao longo da semana, oscilando dentro da janela aceitável (5,5 a 6,5). O objetivo é cobrir a faixa de absorção ótima de diferentes nutrientes: micronutrientes absorvem melhor em pH mais baixo (5,5–5,8), macros como Ca e Mg em pH mais alto (6,0–6,2). Funciona no coco inerte; não recomendado no solo orgânico.

PPFDPhotosynthetic Photon Flux Density — µmol/m²/sCultivo

Densidade de fluxo de fótons fotossinteticamente ativos por unidade de área por segundo. É a medida de intensidade luminosa instantânea relevante para a fotossíntese. Medido com quantômetro (PAR meter). Para cannabis no florescimento, targets comuns: 600–900 µmol/m²/s. O DLI é calculado a partir do PPFD integrado ao longo do fotoperíodo.

R
RDCResolução da Diretoria ColegiadaRegulatório

Ato normativo emitido pela ANVISA. No contexto da cannabis medicinal, as principais RDCs são: 16/2014 (primeiros critérios para importação de canabidiol), 1012/2026 (produtos derivados de cannabis com registro), 1013/2026 (substâncias ativas de cannabis) e 1014/2026 (modelo associativo Sandbox para produção por associações de pacientes).

RunoffCultivo

Volume de solução que drena pelo fundo do substrato durante a irrigação. O runoff EC e o runoff pH são indicadores do estado interno do substrato. Target de runoff por irrigação: 10–20% do volume aplicado. Runoff insuficiente permite acúmulo de sais; runoff excessivo desperdiça nutrientes e pode desestabilizar o buffer do substrato.

S
Sandbox RegulatórioRegulatório

Programa da ANVISA que permite a associações de pacientes produzir e fornecer cannabis medicinal aos seus membros em um ambiente regulado de exceção temporária. Regulamentado pela RDC 1014/2026. As associações participantes operam sob supervisão da ANVISA com obrigações de rastreabilidade, responsável técnico habilitado e relatórios periódicos. Não é equivalente ao autocultivo individual: é um modelo coletivo formal com requisitos próprios.

SCROGScreen of GreenCultivo

Técnica de condução que utiliza uma tela horizontal (malha de 5–10 cm) posicionada acima das plantas para criar um dossel uniforme. Os ramos são guiados pelos quadrados da tela durante o vegetativo; após a virada para 12/12h, os brotos crescem verticalmente. Maximiza a uniformidade de PPFD na zona de florescimento e aumenta produtividade por m² de espaço.

T
TerpenosQuímica

Compostos orgânicos voláteis produzidos nas glândulas de resina de cannabis, responsáveis pelo aroma e contribuindo para o perfil farmacológico do produto. Os principais terpenos em cannabis incluem mirceno, limoneno, linalol, pineno, cariofileno e humuleno. A hipótese do efeito entourage sugere interação sinérgica entre terpenos e canabinoides. Degradam-se por calor, luz e oxidação.

THCDelta-9-TetrahidrocanabinolQuímica

Principal canabinoide psicoativo da Cannabis sativa. Agonista parcial dos receptores CB1 do sistema endocanabinoide. Utilizado terapeuticamente em condições como dor crônica refratária, náusea por quimioterapia, espasticidade e certos transtornos neurológicos. Sintetizado na forma ácida THCA, convertido em THC por descarboxilação (calor). É substância sujeita a controle especial no Brasil.

ToppingCultivo

Remoção cirúrgica do broto apical dominante para interromper a dominância apical e estimular o desenvolvimento de dois brotos laterais de igual vigor. Após o topping, a planta redistribui hormônios de crescimento para os brotos laterais, resultando em estrutura mais ramificada e múltiplos pontos de florescimento. Requer período de recuperação de 5 a 10 dias. Não recomendado para autoflowers em estágio avançado.

TricomasAgronômico

Glândulas microscópicas presentes na superfície das inflorescências femininas que produzem e armazenam canabinoides, terpenos e flavonoides. Os tricomas capitado-glandulares pedunculados são os principais produtores de resina. O estado dos tricomas (translúcidos, leitosos, âmbar) é o indicador mais preciso do ponto de colheita: translúcidos indicam imaturidade, leitosos indicam pico de THC, âmbar indica conversão para CBN.

V
VPDVapor Pressure Deficit — Déficit de Pressão de Vapor (kPa)Cultivo

Diferença entre a pressão de vapor saturante (capacidade máxima do ar de reter vapor d'água em determinada temperatura) e a pressão de vapor atual. O VPD governa a taxa de transpiração foliar e, indiretamente, o transporte de água e nutrientes da raiz para a folha. VPD baixo reduz a transpiração e o transporte de Ca; VPD alto demais gera estresse hídrico. Targets por fase: seedling 0,4–0,8 kPa, vegetativo 0,8–1,2 kPa, florescimento 1,0–1,6 kPa.

A linguagem é o começo. O domínio vem com prática.

Os cursos da Buena Cosecha aplicam essa terminologia em protocolos práticos de cultivo. Do VPD ao dry back, da germinação à cura: conteúdo técnico estruturado por Eng. Agrônomo especializado.

Consultoria Técnica · Cannabina